novembro 14, 2006

O desdém da mediocridade

AMADEO DE SOUSA-CARDOSO chegou a Paris em Novembro de 1906, alguns meses depois de Modigliani. Neste período, morria Cézanne, enquanto Picasso pintava «Les Demoiselles d`Avignon».
Em Montmartre, nos ateliers de boémia e miséria, começava uma nova época da pintura ocidental; Em Montparnasse, Amadeo procurava nos ateliers do Boulevard Raspail a admissão às «Beaux-Arts», no seguimento dos estudos iniciados em 1905, na Academia das Belas-Artes em Lisboa.


Desde cedo, Manuel Laranjeira, médico no Porto, exerceu grande influência, no plano intelectual e humano, na evolução do jovem Amadeo, a quem via nos verões da praia de Espinho, onde seus pais tinham casa. As tertúlias no Café Chinês, os passeios a dois e a troca de correspondência tornariam Amadeo seu confidente.

Manuel Laranjeira tinha perante a arte um sentimento de raiz literária da Renascença Portuguesa, entre névoas e saudades.

Este melancolismo não afectava Amadeo, antes lhe provocava desgosto pela futilidade da vida que levava; O tédio das cópias a carvão no casarão do Largo da Biblioteca, as caricaturas de professores e colegas, fraca compensação da mediocridade que deixara em Lisboa e Porto.

Fernando Pessoa chegava a Portugal , Santa-Rita pintava o «Orfeu do Inferno» e Almada Negreiros tinha dez anos de idade.



Amadeo, a quem Manuel Laranjeira vaticinara que «haveria de vencer, haveria de triunfar», desenhou o corpo do amigo enrodilhado numa cadeira de café, abandonado, escorregando, um braço estirado sobre o tampo, outro torcido para as costas da cadeira, as pernas magras torcidas e a trunfa negra saindo do chapeirão enfiado pela cabeça abaixo, boneco desarticulado, só de costas e à deriva do destino...






No verão de 1907, Amadeo abandonava os estudos na Escola de Arquitectura, enquanto confessava que, longe de ter perdido tempo por concluir não ter vocação, antes tinha alargado os seus conhecimentos artísticos , cuja utilidade se reflectia na sua evolução natural enquanto caricaturista.

Durante esse tempo, ia estudando os modelos da imprensa parisiense; Ao contrário de outros artistas portugueses que nesse período também estudavam em Paris, como Emmerico Nunes, Manuel Bentes, Acácio Lino, Alfredo Ferraz - modernistas e naturalistas - adquiria um traço mais sintético, de melhor definição formal, fruto da liberdade de quem não dependia dos desenhos para viver.

Na caricatura de 1910, juntamente com os colegas Manuel Bentes, Eduardo Viana e Emmerico, Amadeo é um rapaz empertigado, o busto envolvido numa capa que lhe esconde parte do rosto, um chapéu sobre os olhos, de pose espanholada.

Assim ele se via na autocaricatura; de peito arqueado e alargando os braços e as mãos enluvadas, caminhando nas pontas da botas para impor uma estatura que não era a sua.


Em noitadas de sacrifício a Baco, Amadeo, desnudano, fazendo peito, coroa de parras na cabeça e garrafas ao pé; a seu lado, Bentes, Alberto e Emmerico faziam figuração, repetindo poses dos «borrachos» de Velasquez.





in Amadeo & Almada, de José Augusto França - Bertrand Editora


Será porventura a Exposição mais importante do ano (para a Gulbenkian), pela importância da obra de Amadeo Sousa-Cardoso; Será que consegue rivalizar com esta?

outubro 20, 2006

Uma bela representação do feio

Uma beleza natural é uma coisa bela: a beleza artística é uma bela representação de uma coisa. Para avaliar uma beleza natural, enquanto tal, não preciso ter primeiro um conceito do que deve ser o objecto; isto é, não me é necessário conhecer a finalidade material (o fim), mas é a mera forma, sem conhecimento do fim, que agrada por si na mesma avaliação.
Mas, se o objecto é apresentado como um produto da arte e enquanto tal, então deve ser definido belo, assim como a arte pressupõe sempre um fim na causa (e na causalidade dela), em primeiro lugar deve ser posto como fundamento um conceito daquilo que a coisa deve ser; e assim como a concordância do múltiplo numa coisa por uma sua determinação interna como fim é a perfeição da coisa, na avaliação da beleza da arte deverá ter-se em conta ao mesmo tempo a perfeição da coisa, sobre a qual, pelo contrário, de modo nenhum se questiona na avaliação de uma beleza natural (enquanto tal).
- É verdade que na avaliação dos objectos vivos da natureza, por exemplo do homem ou de um cavalo, se torna ordinariamente em consideração a finalidade objectiva, para julgar da sua beleza; mas, então, o juízo já não é estético puro, isto é, mero juízo de gosto.




A natureza nunca é avaliada pelo facto de parecer arte, mas enquanto é efectivamente arte (embora sobre-humana); e o juízo teleológico serve ao esteta de fundamento e condição de que ele deve ter em conta. Com efeito, nesse caso, não se pensa, de facto, por exemplo, ao dizer: «Eis uma bela mulher», a não ser nisto:
a natureza representa de modo belo, na sua figura, os fins da compleição feminina;
na verdade, é preciso que se veja para além da mera forma, se vise um conceito, para assim se poder pensar o objecto mediante um juízo estético logicamente condicionado.
A arte bela mostra a sua excelência precisamente no facto de ela descrever de modo belo coisas que na natureza seriam feias ou desagradáveis.
As fúrias, as doenças, as devastações das guerras, etc., podem, enquanto coisas prejudiciais, ser descritas e até representadas pintando-as de maneira muito bela; mas uma espécie de fealdade não pode ser representada de modo conforme com a natureza sem destruir todo o comprazimento estético e, portanto, a Beleza artística, isto é, a que provoca desgosto.
De facto, nesta sensação singular que se fundamenta só na imaginação, o objecto é representado como se se impusesse à fruição, enquanto, pelo contrário, o repelimos violentamente; assim, a representação artística do objecto já não é distinta, na nossa sensação, da natureza do próprio objecto e, por isso, é impossível que seja considerada bela.


Immanuel Kant -
Crítica da capacidade de juízo
in História da Beleza, de Umberto Eco

outubro 07, 2006

agosto 15, 2006

Seurat, o novo impressionista

Quando Georges Seurat (1859-1891) apresentou Um Domingo à Tarde na Ilha de la Grande Jatte (1884-1886), foi aclamado como o expoente dos pintores neo-impressionistas.

Les bourgeois de Paris, que parecem em excursão numa das ilhas do Sena, são na verdade figuras estáticas, desligadas entre si, conferindo assim um teor muito estruturado à composição.




Durante cerca de dois anos fez mais de sessenta estudos para esta composição, meticulosamente elaborada com minúsculos pontos de tinta.

As cambiantes dos tons básicos - obtidas pela distância entre as manchas de cor e pelos contrastes criados pela delimitação das áreas - de alguma forma, representam o início do cubismo.

A técnica pontilhista de Seurat, atinge a plenitude num dos seus últimos trabalhos, Os Modelos, de 1887.





clique nas imagens para ampliar

agosto 09, 2006

a tradição já não é o que era



A expressão máxima de uma visão vanguardista da sensualidade, aqui.

agosto 02, 2006

En passant...



... ou como a progressão imprime movimento à côr.

julho 31, 2006

Ulises y las sirenas, de Picasso



A la vora del mar. Tenia
una casa, el meu somni,
a la vora del mar.

Alta proa. Per lliures
camins d’aigua, l’esvelta
barca que jo manava.

Els ulls sabien
tot el repòs i l’ordre
d’una petita pàtria.

Com necessito
Contar-te la basarda
que fa la pluja als vidres!
Avui cau nit de fosca
damunt la meva casa.

Les roques negres
m’atrauen a naufragi.
Captiu del càntic,
el meu esforç inútil,
qui pot guiar-me a l’alba?

Ran de la mar tenia
una casa, un lent somni.

excerto XXV do poema Cementiri de Sinera (1946)
do poeta catalão
Salvador Espriu

julho 23, 2006

Erro de cálculo


Nas Ramblas, em Barcelona.
O homem estátua gosta de ser fotografado... desde que lhe paguem.
O casal de ar britânico, pára. A senhora aponta a objectiva e dispara: uma, duas, três.
O homem estátua avança para ela, esfrega o polegar e o indicador: "peseta!"
A senhora sorri e afasta-se.
O homem estátua não acha graça, abre a mala e começa a disparar maçãs e laranjas.
Falha por pouco.
O senhor, volta-se e avança em passo decidido (vai dar-lhe um estalo, penso), tira-lhe os óculos da cara e vai-se embora.
O homem estátua fica sem a moeda, a provável refeição de fim de tarde... e os óculos.
"Pelo menos, se lhe tivesse acertado..."

julho 19, 2006

Santíssima Trindade, de Montoliu

Pintor da Coroa de Aragón, Valentí Montoliu trabalhou em Tarragona entre 1433 e 1447.
Seguidor do catalão Jaume Huguet, foi também autor do retábulo de San Abdón e San Senén de Villafranca del Cid.






Visão da Santíssima Trindade por São Francisco de Assis.
Atribuída a Valentí Montoliu (séc. XV)
Pintura sobre tábua
Catedral de Tarragona

julho 16, 2006

a menina dança?



Não sei se por ser a obra mais emblemática de los Picassos des Antibes, mas é a minha favorita.

O mar, com os tons do Mediterrâneo; O bailado da mulher, homenageada; O centauro e os faunos, todos familiares; tudo desperta felicidade, alegria.

No Museu Picasso, em Barcelona.