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outubro 20, 2006

Uma bela representação do feio

Uma beleza natural é uma coisa bela: a beleza artística é uma bela representação de uma coisa. Para avaliar uma beleza natural, enquanto tal, não preciso ter primeiro um conceito do que deve ser o objecto; isto é, não me é necessário conhecer a finalidade material (o fim), mas é a mera forma, sem conhecimento do fim, que agrada por si na mesma avaliação.
Mas, se o objecto é apresentado como um produto da arte e enquanto tal, então deve ser definido belo, assim como a arte pressupõe sempre um fim na causa (e na causalidade dela), em primeiro lugar deve ser posto como fundamento um conceito daquilo que a coisa deve ser; e assim como a concordância do múltiplo numa coisa por uma sua determinação interna como fim é a perfeição da coisa, na avaliação da beleza da arte deverá ter-se em conta ao mesmo tempo a perfeição da coisa, sobre a qual, pelo contrário, de modo nenhum se questiona na avaliação de uma beleza natural (enquanto tal).
- É verdade que na avaliação dos objectos vivos da natureza, por exemplo do homem ou de um cavalo, se torna ordinariamente em consideração a finalidade objectiva, para julgar da sua beleza; mas, então, o juízo já não é estético puro, isto é, mero juízo de gosto.




A natureza nunca é avaliada pelo facto de parecer arte, mas enquanto é efectivamente arte (embora sobre-humana); e o juízo teleológico serve ao esteta de fundamento e condição de que ele deve ter em conta. Com efeito, nesse caso, não se pensa, de facto, por exemplo, ao dizer: «Eis uma bela mulher», a não ser nisto:
a natureza representa de modo belo, na sua figura, os fins da compleição feminina;
na verdade, é preciso que se veja para além da mera forma, se vise um conceito, para assim se poder pensar o objecto mediante um juízo estético logicamente condicionado.
A arte bela mostra a sua excelência precisamente no facto de ela descrever de modo belo coisas que na natureza seriam feias ou desagradáveis.
As fúrias, as doenças, as devastações das guerras, etc., podem, enquanto coisas prejudiciais, ser descritas e até representadas pintando-as de maneira muito bela; mas uma espécie de fealdade não pode ser representada de modo conforme com a natureza sem destruir todo o comprazimento estético e, portanto, a Beleza artística, isto é, a que provoca desgosto.
De facto, nesta sensação singular que se fundamenta só na imaginação, o objecto é representado como se se impusesse à fruição, enquanto, pelo contrário, o repelimos violentamente; assim, a representação artística do objecto já não é distinta, na nossa sensação, da natureza do próprio objecto e, por isso, é impossível que seja considerada bela.


Immanuel Kant -
Crítica da capacidade de juízo
in História da Beleza, de Umberto Eco

fevereiro 19, 2006

Livro 2 - Os Alvores do Renascimento

No segundo volume de A GRANDE HISTÓRIA DA ARTE são apresentados alguns trabalhos que ilustram a redescoberta da antiguidade clássica, onde os artistas se inspiraram para a ruptura com a tradição medieval, até então dedicada ao sagrado.
No início do século XV, tendo como ponto de partida a Bíblia e o interesse pelas letras como forma de conhecimento, criou-se a corrente humanista.

Também a técnica da perspectiva linear - desenvolvida por
Filippo Brunelleschi - deu origem a uma nova noção de espaço, designada por janela pictórica.

Entre a realidade objectiva e a sua expressão simbólica encontramos a correspondência entre medida e proporção:
-
O homem é a medida de todas as coisas, mas essa medida é proporcionada por Deus.
Da adopção deste preceito, nasceu o movimento que se designou por naturalismo.



No fim do primeiro quartel do século XV, Masaccio (1401-1428) criou a Santíssima Trindade, um fresco fundamental nas obras fundadoras do Renascimento.




O espaço tridimensional realça a hierarquização das figuras e transmite uma noção exacta do volume e do espaço, por via da parede escavada.
Os encomendadores ajoelhados - cuja participação é indirecta, na cena - conferem profundidade ao primeiro plano.
Um triângulo - que simboliza a trindade - agrupa Maria, João e Cristo;
Outro, invertido, tem por base os capitéis, e junta Deus e Cristo.




O sarcófago, que representa a morte, tem inscrita a legenda
EU FUI O QUE TU ÉS E O QUE EU SOU TU SERÁS.







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Índice do Volume:
1 - A Europa das Cortes: O Gótico Internacional
2 - O Estudo da Antiguidade Clássica
3 - A Descoberta da Perspectiva
4 - A Descrição Analítica da Realidade
5 - O Homem no Centro do Universo
6 - A Difusão da Linguagem Renascentista
7 - O Contexto Veneziano
8 - O Tempo de Lorenzo, O Magnífico

fevereiro 04, 2006

Livro 1 - Arte Gótica

O jornal Público disponibiliza a partir de hoje a A GRANDE HISTÓRIA DA ARTE, com revisão técnica de Paulo Pereira e Ferreira Chaves.

A Colecção:
1. Arte Gótica – 20060204
2. Os Alvores do Renascimento – 20060211
3. O Renascimento e o Maneirismo – 20060218
4. Arte Média e Romantismo – 20060225
5. Arte do Próximo Oriente – 20060304
6. Arte Egípcia – 20060311
7. Arte Barroca – 20060318
8. Arte Rococó – 20060325
9. Romantismo e Realismo – 20060401
10. Arte Fenícia – 20060405
11. Arte Grega – 20060415
12. Arte Romana – 20060422
13. Impressionismo – 20060429
14. Cubismo – 20060506
15. Período entre Guerras – 20060513
16. Dicionário de Artistas I - 20060520
17. Dicionário de Artistas II – 20060527
18. Dicionário de Termos Artísticos e Arquitectónicos - 20060603




Lamentação pela morte de Cristo, 1303-1305
Giotto di Bondone (1266?-1337)
Cappella degli Scrovegni - Capela da Arena, Padua



Durante os séculos XI e XII teve lugar a origem das grandes ordens religiosas como a Cisterciense, que nos deixou a Abadia de Alcobaça.

Os artistas das grandes catedrais - cujos motivos remetiam para a antiguidade clássica – perderam algum brilho para os pintores, que se inspiravam na vida, expressa numa visão mais alegre da realidade, menos bizantina.

A elegância e a humanidade das imagens - no detalhe e na luz - eram marcas de artistas como Giotto, Duccio, Fra Angelico, Simone Martini e os irmãos Lorenzetti, nomeadamente nos frescos.

Este período, historicamente pouco definido durante a transição da Idade Média para o Renascimento, designou-se a partir do século XVI como Gótico.
Sociedades evoluidas como a França e a Itália, deram um grande contributo para a emergência da arte europeia nesta época.


Maestà, 1315 (detalhe)
Fresco de Simone Martini (1280?-1344)
Palazzo Pubblico, Siena

Nota positiva-
Grande profusão de imagens; análise e aprofundamento de obras.
Nota negativa-
Algumas imagens de fraca qualidade; embalagem sofrível.


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